Paróquia Bom Jesus

PALAVRINHA CARINHOSA DO PADRE CLAUDIO

 

 

 

 

Meus Queridos filhos e filhas espirituais da Paróquia Bom Jesus e leitores mil em nossa Nação. 

 

Neste fim de semana celebramos na Igreja Católica a Solenidade de São Pedro e São Paulo Apóstolos. 

 

Nossas Preces pelo Santo Pontífice, o Papa Francisco. 

 

Hoje, imploro por sua condescendência porque não conseguirei, com certeza, escrever sobre a Pandemia deste indecente de Coronavírus, mas afirmo que celebro diariamente pelas vítimas do COVID-19 e pelas famílias em Luto. Luto é Luta! 

 

Já são 56.000 mortos no nosso País. 

 

Eu viajei nesta semana para o Paraná. Saí umas cinco horas da Madrugada. Gosto de viajar sozinho. É uma solidão abençoada. O pensamento voa, distraído que é! Ao contrário, quando o pensamento marcha metódico e pratico, ao ritmo das obrigações, a cabeça sofre com tanta concentração! Focado na direção do automóvel, no velocímetro e na Rodovia, no mato verde e nas quaresmeiras roxas em flor percorri 600 km em seis horas de viagem. Eu pensava: TENHO QUE CHEGAR A TEMPO POIS VAMOS TODOS MORRER! 

 

Eu assisti a aurora, um sol alaranjado que me trouxe alento ao coração. Se não fôssemos morrer não teríamos porque nos preocupar com a duração da viagem que poderia estender-se eternamente ou quanto durasse o combustível. 

 

O psicanalista francês JACQUES LACAN disse que somente aguentamos a Vida na condição de sabermos que ela acaba e o psicanalista inglês DONALD WINNICOTT deixou a dica de tentarmos estar vivos até o momento de nossa Morte. 

 

Para a Psicanálise, a Morte auto-imposta como no Suicídio é tema crucial para reflexão sobre o viver. Recentemente sepultamos no Cemitério Campo Grande o corpo do Carlos que saltou da sacada de seu apartamento na Avenida Nossa Senhora de Sabará num ato suicida. 

 

O pernambucano Manuel Bandeira dizia, do último poema que haveria de escrever, que desejava que ele tivesse “a paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. O escritor argelino Albert Camus via o suicídio como “um ato preparado no silêncio do coração, como uma grande obra de arte”. 

 

Algumas Religiões amaldiçoam os suicidas. Argumentam que a Vida é dádiva de Deus e que somente Ele tem o direito de reivindicá-la. 

 

Que miseráveis seres somos nós, condenados a aceitar até o fim as dores que o destino inflige em nosso corpo e na nossa alma. Pensam que Deus é um Demônio sádico que nos envia sofrimentos e nos ameaça com dores mais atrozes ainda se não os aceitarmos e suportarmos com gratidão. 

 

Isso, eu afirmo, não é um DEUS. É um monstro que jamais teria o meu respeito. 

 

Se o sofrimento fosse dádiva de Deus, teríamos de sofrer a perna apodrecida pela gangrena até o fim e morrer sem amputá-la. E teríamos de suportar a dor do câncer, sem o alívio da Morfina até o fim. Assim Deus quis? Mas se assim Deus quer, não pode ser um Deus de Amor. A Vida Humana, como fato biológico, não é o Valor Supremo. Todas as Religiões reconhecem que, acima do Valor da Vida, está o Valor do AMOR. Por causa do Amor até a Vida pode ser sacrificada. NINGUÉM TEM MAIOR AMOR DO QUE AQUELE QUE DÁ A SUA VIDA. (Evangelho de São João 15,13). 

 

Todos os que amam verdadeiramente estão dispostos  a dar a sua Vida. E é exatamente isso que dá sentido à nossa Vida: As coisas pelas quais estamos dispostos a morrer. As coisas que nos dão razões para morrer são as mesmas coisas que nos dão razões para viver. Vive-se e Morre-se pela Pátria, Família, Ideais, Amores,.... 

 

Mas eu não viajei 600 km por turismo simplesmente para ver auroras e quaresmeiras em flor. Viajei para prestar minhas últimas homenagens a NADIR APOLINARIO, homem cristão, íntegro na Fé, intercessor nas Missas, teólogo por natureza, companheiro brilhante, amado aos extremos pela família, Ministro da Eucaristia, uma presença indispensável na Igreja, vitalidade fulgurante, conversa despojada de protocolos, maravilhoso senso de humor, proprietário de uma gargalhada inenarrável. Tinha ele talhado recentemente um pilão numa tora de madeira com o objetivo de macerar colorau. Já havia torrado café do cafezal do quintal em Sabáudia, interior do Paraná. Ele gostava de trabalhar a horta. Deus precisou dele no Jardim do Éden. Sofreu um mal estar de sexta-feira para sábado e foi ao chão numa queda que causou traumatismo. Foi quase uma semana de batalha médico-hospitalar para salvá-lo mas nosso Bom Jesus não arredou o pé: Quis o Srº APOLINARIO no Paraíso dos Justos. 

 

Quem arranca um espinho e planta uma flor, está servindo os propósitos de Deus, mostrando um pedacinho do Paraíso. Paraíso é jardim, é horta, é canteiro de flores! Precisa de mãos de jardineiros como as do nosso APOLINARIO. Sendo ele um destes seres especiais, se tivesse perdido a capacidade de falar que era toda a sua alegria ou ficasse praticamente paralisado, a Vida se tornaria peso insuportável. Deus, então, conhece nossas vontades mais íntimas. Mas a Morte em si faz com que a Vida pese. Parece-nos que falta um lírio aqui, uma rosa ali, uma orquídea acolá! E o corpo do SR APOLINARIO foi sepultado entre lágrimas e flores numa manhã linda, céu meio nublado como se chorasse aquela Morte, ventinho fresco do início de inverno. 

 

A poetisa Adélia Prado ensina que aquilo que a memória amou fica eterno. Por volta dos três anos de idade, as crianças de hoje já estão bem interessadas na questão: “de onde viemos e para onde vamos?” Para onde foi o vovô ou para onde foi o peixinho são perguntas tão fáceis de responder quanto impossíveis. 

 

No decorrer da minha vida acadêmica me formei em Filosofia, Teologia e Administração de Empresas, mas sempre me surpreende a Psicanálise e a insistência de Freud em querer saber a razão de sofrermos tanto diante da perda do objeto amado. Afinal, não é óbvio? 

 

Imagino o Fundador da Psicanálise, SIGMUND FREUD ainda criança intransigente que perguntava tudo sem parar e que, diferentemente dos demais pimpolhos, cresceu sem se emendar. 

 

A pergunta escandalosa e que se escancara diante da Morte, é sobre o destino a ser dado à falta que o outro nos faz. Para onde vai o Amor anteriormente investido, depois da partida do Amado? De onde virá o Amor depois de sua perda? 

 

O Luto é o penoso e incontornável processo de transferir o investimento amoroso para outros objetos para que a Vida possa seguir sem, no entanto, deixarmos de sentir a falta. Lidando com a morte do próprio pai, Freud escreveu sua Obra “A interpretação dos sonhos” dando um destino magnífico para seu sofrimento. Em “Luto e Melancolia” FREUD foi enfático em não recomendar o tratamento do Luto, pois qualquer um de nós teria as ferramentas para realizar esse Processo. Caso contrário, não teríamos como suceder nossos pais, filhos e companheiros desta jornada chamada Vida. 

 

Penso que nossa época vai na contramão de todas as condições à elaboração do luto preconizadas por Freud, dificultando aquilo que por si só costuma ser cruel. No sepultamento do Sr Apolinário alguém me perguntou se a alma havia de desligado do corpo na hora da queda que causou traumatismo na madrugada de sábado ou na hora do desligamento dos aparelhos no Hospital, na quarta-feira. Eu não soube responder, mas disse que o duro mesmo era a falta que eu sentia do Srº Apolinário. 

 

Não estamos acostumados a falar sobre a certeza da Morte, mas não devemos nos furtar de tal responsabilidade, afinal não temos a Eternidade para abordar essa conversa. Inconscientes da Morte, aceitamos como naturais as cargas de repressão, sofrimento e frustração que a realidade social nos impõe. Srº Apolinário morreu. 

 

Minha tristeza é mansa e justa. Não desejo que me consolem porque meu coração de padre é um espaço mais sagrado quando está cheio de ausências. Neste coração sacerdotal acontece a presença das ausências. É o lugar da saudade! 

 

Lembro-me da Missa de 7º Dia de meu amigo pessoal e Ministro da Eucaristia na Paróquia, o João Friscio. Com voz embargada cantei pedaço da minha canção de Nelson Gonçalves: NAQUELA MESA ESTÁ FALTANDO ELE E A SAUDADE DELE ESTÁ DOENDO EM MIM

 

Tenho constantemente falado sobre a fragilidade da VIDA. Prestem atenção: Aos que não fazem uso do remédio doce, mais cedo ou mais tarde lhes será aplicado o remédio amargo. Quando a Morte bate à porta e se parte a taça de cristal, e se rompe o fio de prata, e o que era reto fica torto, e o que estava vivo de repente padece, quando  a dor é aguda, lágrimas amarguradas nos olhos, aí a gente lembra do versinho de música do Legião Urbana: É PRECISO AMAR AS PESSOAS COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ. 

 

Gente Iluminada, vamos deixar de Hipocrisia, amar as pessoas e se deixar amar! 

 

Hoje é fácil passear com várias pessoas ao longo da Vida mas é difícil entender que raríssimas pessoas vão te aceitar e te dedicar AMOR simplesmente pelo que VOCÊ é.

 

É fácil viver estas superficialidades, futilidades e frivolidades, mas é difícil identificar quem realmente te quer bem e te oferece apoio moral, prece e às vezes um ombro. 

 

Aprenda com este pobre padre caipira: O privilégio de se sentir autenticamente Amado e Querido é para poucos que, um dia, ousaram fazer essa distinção. Ao Sr APOLINARIO, minhas preces, meu respeito e meu afeto de filho de consideração que sou. 

 

E a Palavra de Deus para hoje está no Evangelho de João, Capítulo 3, versículo 16. 

 

Hoje nem será necessário Você procurar na Bíblia porque transcrevo o Versículo: 

 

“Porque Deus amou ao Mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito para que todo o que Nele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna”. 

 

Vou destrinchar para seu maior entendimento:

 

PORQUE: Maior explicação.

DEUS: Maior Ser.

AMOU: Maior Mandamento.

AO MUNDO: Maior Alvo.

DE TAL MANEIRA: Maior Intensidade.

QUE DEU: Maior Dádiva.

SEU FILHO UNIGÊNITO: Maior expressão de Deus.

PARA QUE TODO: Maior Abrangência.

O QUE NELE CRER: Maior Condição.

NÃO PEREÇA: Maior Livramento.

MAS TENHA: Maior Conquista.

A VIDA ETERNA: Maior Esperança. 

 

Com minhas Preces e Benção Sacerdotal,

Padre Claudio Dias.