Paróquia Bom Jesus

PALAVRINHA CARINHOSA DO PADRE

Neste último fim de semana de julho em vista de Agosto!

 

 

Meus Queridos filhos e filhas espirituais da Paróquia Bom Jesus e demais leitores amados com a mesma intensidade!

 

Somente quem vive os Agostos é digno da Primavera.

 

Lembro-me bem: foi quando julho se foi que um vento mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas deixadas pelo Outono, este vento me revelou algumas verdades. Convenceu-me de que o céu apresentaria metamorfoses avermelhadas, que a poeira levantada em redemoinho sinalizaria que as coisas nem sempre ficam no mesmo lugar e que é preciso aceitar que o pó só se assenta depois que os redemoinhos se vão.

 

Foi quando Julho se foi que a minha solidão convidou-me a uma reflexão. Contou-me a respeito de tempos de espera! Me disse que o barulho das árvores tinha algo a dizer sobre aceitação. E eu fiquei pensando como elas, as árvores, aceitam as estações que, se as estremecem, também lhes florescem os galhos. Mas tudo a seu tempo. Foi em Agosto que descobri que os cachorros loucos são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento. São nossos estremecimentos particulares que a nossa rigidez de certezas não nos permite encarar.

 

O mês de Agosto tem muito a ensinar. Porque Agosto é mês de jardineiro! É dentro do Agosto, berço do Inverno, que as sementes dormem. Aguardam seu tempo de desabrochamento. Agosto é guardião de boa nova, preparador de flores. Agosto é quando Deus deixa a natureza traduzir visivelmente o tempo das mutações. Compartilhe, propõe Agosto, agasalhos, sopas quentinhas, cafés mais fortes e abraços mais apertados, porque abraços aquecem a alma. Distribua mais afeto porque Inverno é acolhimento. Agosto é tempo de preparar Setembro. E, de Setembro, todos sabemos o que esperar. Esperamos a explosão de cores, que com seus mais variados nomes, vem em forma de flores. Vamos apreciar Agosto, recebê-lo com o espanto feliz de quem não desafia ventos. Que o mês e o vento desarrumem nossos cabelos e espalhem suas folhas levantando suas poeiras.

 

Aceite as esperas, mas coloque vaso na janela: Só quem vive bem os AGOSTOS é merecedor da PRIMAVERA.

 

Escrevi a PALAVRINHA CARINHOSA DO PADRE na semana passada sobre o Dia da Amizade. Algumas pessoas entraram em contato indignadas porque não nomeei nenhum companheiro fuzileiro dos tempos de Forças Armadas, além de não citar um único nome de pessoa que frequenta a Paróquia ou que me acompanha nestes 18 Anos de Sacerdócio. Gente Iluminada, eu não gostaria de correr o risco de nomear 6 pessoas num texto e deixar 6.000 às margens da homenagem. Este tipo de protocolo termina por ser uma contravenção que gera inveja, questionamentos inúteis e ciúmes, prato cheio para o Carcará Malévolo exercitar a Maldade. Primeiro vou tentar me explicar com relação aos velhos irmãos de Armas. Os Dragões da Independência, em 1986, receberam 1.000 soldados fuzileiros, dentre os quais este hoje pobre padre caipira. Não citar um único nome? Já se passaram 35 anos e penso que seja muito natural perder os contatos no decorrer do tempo. Mesmo com as Redes Sociais tão prestigiadas atualmente, devo lembrar que não éramos reconhecidos pelo nome próprio, mas por um número e por um codinome. Você serve por um período as Forças Armadas e simplesmente se dissipa no ar como odor agradável de incenso. Há alguns anos, um pelotão de aproximadamente 40 guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia que se autodenominava Comando Simon Bolívar entrou em território brasileiro às margens do Rio Traíra no Estado do Amazonas e atacou de surpresa o Destacamento do nosso Exército que possuía somente 17 militares na ocasião. O ataque foi motivado pela repressão exercida pelo Destacamento de Fronteira ao garimpo ilegal na região, uma das fontes de financiamento das FARC. Estes revolucionários que se intitulavam Exército do Povo sempre tiveram envolvimento com o narcotráfico, garimpo ilegal, contrabando, sequestros e históricas invasões violentas dentro das limitações fronteiriças Colômbia/Brasil. No ataque 03 militares brasileiros morreram e nove ficaram feridos. Várias armas, munição e equipamentos foram levados pelo guerrilheiros colombianos. Posteriormente, houve retaliação por parte do Governo Brasileiro que adentrou a Selva Colombiana. O saldo da Operação militar foi o de 62 guerrilheiros colombianos mortos e a maior parte do armamento e equipamento recuperados. Desde então não há notícias desta gente invadindo nossas Fronteiras. Em 2019, somente no Governo Bolsonaro, o Exército realizou homenagens aos militares que morreram defendendo o nosso Território Nacional. Nenhuma Emissora de TV fez questão de divulgar o fato histórico haja vista o envolvimento das FARC com cocaína e com uma Ideologia Política de extrema-esquerda. Nestes tempos difíceis em que no Parlamento do nosso País há propostas para a legalização de drogas para uso recreativo ou para consumo livre da população, parece-me que paira no ar uma demonização dos meios de repressão às substâncias ilícitas. Vamos deixar que os mortos chorem os seus mortos!

 

Quando morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.

 

Há pessoas mergulhadas no anonimato que muito fizeram no combate a disseminação de drogas e a defesa das fronteiras do nosso Brasil e seus atos patrióticos serão melhor respeitados desde que seus nomes sejam preservados num nobre esquecimento. Suas identidades importam somente a Deus. E quanto o fato deste Sacerdote não ter citado um único nome de paroquiano na PALAVRINHA CARINHOSA da semana passada, veja bem, inspiro-me em Santo Agostinho: “O que SOU PARA meus paroquianos me apavora. O que SOU COM meus paroquianos me consola. PARA ELES sou padre, COM ELES sou cristão.” Gente Iluminada, esta é a síntese muito precisa da tensão existente no Sacerdócio, e da maneira de suportá-la e desfrutá-la. Creio estar num caminho certo e confiável, no qual ANTES de ser AMIGO de uma geração, eu sou PAI. Pareço romântico? Sou mesmo! E por que não? De que outra forma pode o dom do Amor circular entre nós? Sei que sou um homem abençoado. Completar 50 Anos me fez muito bem porque me sinto extremamente amado. Sei que o solo onde floresce o meu Sacerdócio é a minha Humanidade, com defeito e tudo. E celebrando 18 Anos de Ordenação Sacerdotal, chego, pois, a maioridade de um Sacramento para assimilar que Deus utiliza de meus frágeis recursos humanos para realizar os propósitos divinos. Algo muito mais profundo do que eu já sonhara aconteceu naquele Sacramento no dia 09 de Novembro de 2002: Tu és Sacerdote para sempre! Mais fundo que as feridas cortando a carne, os músculos e ligamentos até o osso. Mais fundo do que fraturas na pobre sustentação óssea, mais fundo do que poderia a mais intensa “experiência”,  só em ser lembrada, fazer o coração cavalgar desgovernado, e as pequenas glândulas expelir a essência do TERROR ou da PAIXÃO em ser padre, mais fundo que isto chega a Marca do Sacramento. Como padre, sou Pai e Amigo de TODOS.

 

Veja que digitei a palavra “experiência” entre aspas. Experiência do LATIM experientia, palavra formada por três partículas, que são ex (fora), peri (perímetro, limite) e entia (ação de aprender). Fazer uma experiência é sair (Êxodo) do periférico, do superficial (limitações), rumo ao âmago do saber sobre algo ou alguém (ciência). Assim, toda experiência é uma jornada que tem, como ponto de partida, o desconhecido, e como ponto de chegada, o domínio! Quando começa a existir confiança recíproca entre as pessoas, um Mundo se revela e a entrada para ele, o Mundo de Deus, se dá através da porta das histórias, da compaixão, da solidariedade e da amizade. Em palavras mais esclarecedoras, não se pode introduzir a questão de Deus de forma significativa sem contar a história de uma Paróquia digna de confiança e da qual se pode depender.

 

O que eu quero não é tanto me abrigar da tempestade, mas uma Paróquia que tenha simplesmente um lugar para todos, e não qualquer lugar, mas um lugar de HONRA. Não faz sentido ter um pequeno “deus” só para mim; não quero fazer parte do Sacerdócio do EU sozinho. Se pudéssemos aceitar a nós mesmos como dependentes e contingentes conseguiríamos experimentar um pouco mais da liberdade de Santo Agostinho. Olha a segunda citação do nome do santo!!! Ele tinha consciência de si mesmo, desde o início, como Graça. Dizia ele: “A primeira coisa que Deus me deu foi exatamente o meu ser frágil”. Agora digo eu: Quando compreendemos isso em relação a nós mesmos, a Vida pode ser vista como um DOM totalmente independente de nossos méritos e esforços, ao qual se pode responder com um longo ato de Ação de Graças marcado pelo sacrifício e a alegria.

 

Encerro minha PALAVRINHA CARINHOSA desta semana com uma expressão do padre dominicano Jerônimo Savonarola: “Nos primeiros tempos da Igreja, os cálices eram de madeira e os padres de ouro; hoje, a Igreja tem cálices de ouro e padres de madeira!” Savonarola foi condenado pela Igreja a morte por fogueira em 1498.

 

No primeiro Domingo de Agosto celebramos o Dia do Padre. O que diria eu se tivesse a oportunidade de me dirigir a todos os meus Irmãos de Sacerdócio? SEJAMOS AGENTES DA ALEGRIA!

 

Atualmente, a arte de ser um bom Sacerdote, mesmo que caipira, está na questão de aprender a viver como se nossos fracassos e traições nunca conseguissem interromper o compromisso de Deus conosco e a capacidade que ELE tem de nos dar significado a Vida. A arte do Sacerdócio baseia-se em crer que Deus nos chama para sermos agentes da Alegria Divina. Deus nos incumbe da tarefa de testemunhar e difundir a generosidade da qual dependem todas as coisas neste Mundo conturbado. A habilidade de ser cidadão do Reino de Deus depende de aprendermos a viver como se fosse impossível caminhar para Deus sem os dons uns dos outros como FAMÍLIA aqui na Terra.

 

Será a Igreja um local onde podemos esperar ter um encontro com a Alegria?

 

Nós, Sacerdotes, sabemos que somos frágeis instrumentos dessa possibilidade?

 

É óbvio que temos muitas alegrias falsas, dentre as quais um dos mais perniciosos é o culto de personalidade, tipo terrível de idolatria. Muitos Sacerdotes chegam a crer que são portadores do poder e da alegria transcendente, e não o seu instrumento, frequentemente frágil. NÃO se resgata a alegria tentando suprimir devagarinho o que é Santo e Sagrado, e SIM despersonalizando seus usurpadores.

 

SEJAMOS AGENTES DA ALEGRIA.

 

E o que dizer ao povo de Deus com relação a nós, padres da Igreja? Pedir a Intercessão da Humanidade? Jejum? Preces? Sacrifícios? Vigílias? Adoração ao Santíssimo Sacramento? Rosários? NADA DISTO! Paciência! Sim: Paciência! TENHAM PACIÊNCIA CONOSCO! Em palavras bem claras, muitos de nós “Sacerdotes de madeira” tendemos a nos apaixonar por nossa criatividade e inteligência, ... intoxicamo-nos com a nossa suposta genialidade, desajeitados artesãos da própria Vida e esquecemos que devemos estar a serviço da Transcendência. PACIÊNCIA CONOSCO PORQUE SOMOS DE BARRO.

 

E a Palavra de Deus para hoje está nos escritos do Livro de Malaquias, Capítulo 2, Versículo 7.

Com minhas Preces e Bênçãos Sacerdotais,

 

Padre Claudio Dias.

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