Paróquia Bom Jesus

PALAVRINHA CARINHOSA DO PADRE CLÁUDIO DIAS

Nestes tempos de Pandemia

 

Meus Queridos filhos e filhas espirituais da Paróquia Bom Jesus e leitores que me honram por este Brasil, Terra de Santa Cruz. Neste fim de semana celebramos a Liturgia da Ascensão do Senhor Jesus. Celebro todos os dias a Missa pelas vítimas da Pandemia e pelas famílias em luto. Nesta última semana de Maio vou rezar de modo excepcional por todas as crianças do nosso País que, com certeza, não estão entendendo muito bem esta prisão domiciliar obrigatória, longe dos coleguinhas de Escola, distante dos vovôs e das vovós, impedidos de frequentar as ruas, o Shopping, a praia e a Igreja.

 

O rumo da História está mudando com a Pandemia e numa velocidade incompatível com o tempo necessário para compreendermos o verdadeiro significado desta mudança.

 

Não somos meros espectadores. Esta Pandemia nos afeta pelo que ouvimos, lemos e vemos a seu respeito. Ela aparece nos nossos sonhos, contamina nosso humor, abala as estruturas da nossa Espiritualidade.

 

Parece-nos que não há como afrontá-la, como detê-la ou como nos protegermos do indecente do Coronavírus, além do isolamento social e o uso obrigatório de máscaras. Ao contrário, cedemos ao Covid-19 quando ele entra em nossas Vidas pela TV, com a ligeireza das propagandas de margarinas, das novelas, do futebol ou da transmissão de mais uma eliminação no BBB.

 

Hoje eu me sinto cansado, exaurido, como que com minhas esperanças desesperançadas.

 

Tenho usado a palavra Resiliência em meus textos semanais! É preciso ter resiliência para fazer longas travessias, sobretudo em reclusão.

 

No início da Quarentena, logo depois do Dia de São José, em Março, eu até me distrai com a novidade. Após a primeira semana, porém, experimentei nas artérias um certo desconforto. Em quinze dias bateu o esmorecimento, uma apatia, e na sequência experimentei angústia e o temor pela serenidade mental. Resiliência é a elasticidade da mente, a capacidade que desenvolvemos de lidar com situações de stress. Não é incomum, por exemplo, que a pressão psicológica de um Isolamento social prolongado possa detonar episódios de compulsão alimentar, que faz a pessoa ganhar em peso o que perde em autoestima!

 

Penso que se eu não tivesse cultivado o mínimo de disciplina, com certeza hoje estaria nas estatísticas de obesidade emocional, primeiro pela pressão psicológica deste Isolamento Social e segundo porque as pessoas desta Paróquia Bom Jesus não descuidam do bem estar deste pobre padre caipira. São tantas sopas, chás, bolos e delícias das delícias gourmets que despertam a alegria e o apetite do mais sóbrio dos monges. E uma alimentação saudável inflaciona a autoestima de qualquer pessoa, desde que não compactue com o pecado capital da gula!

 

Nesta semana, Gente Iluminada, li o Artigo LIMITES E RESPONSABILIDADES de autoria do General Hamilton Mourão, publicado no Jornal O Estado de São Paulo. O autor escreve com lucidez ao defender que a Pandemia de Covid-19 não é só uma questão de saúde, mas também social, econômica e de segurança. A Pandemia é Política. Alguns de meus leitores me escreveram a respeito de meu texto da semana passada, classificando-o como muito “político”, pouco “teológico”.

 

Vou te confidenciar: a flor de lótus nasce no pântano e exibe beleza aveludada, um capricho de Deus. Do lodo desabrocham flores brancas, vermelhas ou rosáceas e a sua imagem foi usada, faz bom tempo, para expressar a crença de que no meio do caos sempre há uma brisa de Esperança.

 

O grande jurista de Brodowski, já falecido, SAULO RAMOS, escreveu certa feita: “A Política chegou ao fundo do poço em matéria de moral. Mas não morreu a Esperança de nascer uma flor no pântano”. Pois bem, leitores, a Política continua cercada de lama por todos os lados, mas são inegáveis as flores que nascem aqui e ali, sob os cuidados atentos de uma gente de Fé que junta forças e motivação para deixar o conforto de sua residência e organizar ações capazes de mostrar que o Brasil está longe de ser um gigante adormecido em berço esplêndido, mas é futuro para nossas crianças.

 

Hoje há uma chama iluminando parcela considerável da consciência social. O grande escritor de Minas Gerais, Guimarães Rosa certa oportunidade disse “que jamais poderia ser político com toda charlatanice da realidade. O político pensa apenas em minutos. Escritor pensa em eternidades, pensa na ressurreição do homem”! Eu classifiquei como extraordinário o pensamento deste mineiro nascido em Cordisburgo.

 

Quem pensa em “minutos” não tem paciência para plantar árvores, semear canteiros, cuidar de jardins. Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não tem coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de ter que conviver com a vilania, e os jornais televisivos nos tem revelado vilões bem gordinhos na Política Nacional.

 

Eu mesmo sempre tive muita vergonha da classe política de minha terra natal. Sempre considerei o Triângulo Mineiro muito a Deus dará no Estado de Minas Gerais. Se eu fosse político gostaria de ser um Estadista, homem sem estátua para pombo depositar seus dejetos, mas com ações que pudessem propor a troca da força e da violência pela cooperação, pela criatividade, pelo respeito ao Mundo e à natureza, pela solidariedade. Político com propostas que pudessem tornar a Guerra obsoleta, que pudessem convocar a reinvenção da nossa própria Humanidade. Se fosse político, que fosse bom, não é mesmo?

 

Acima da média! Excepcional. Eu sonho que com o fim desta Pandemia possamos escrever uma nova História que não só recorda o passado como aprendizado, mas que celebra o futuro, afinal sobrevivemos a um inimigo invisível aos olhos que já ceifou mais de 21 mil Vidas.

 

Celebramos agora em Abril 520 Anos do Descobrimento do Brasil. Os descobridores, ao desembarcarem, não encontraram um JARDIM. Encontraram uma SELVA. Selva NÃO é Jardim. Selvas são cruéis e insensíveis. Quem sabe, um dia, teremos um grande jardim para todos, obra de pessoas que tiveram o amor de plantar flores diversas em canteiros, e árvores de todos os tipos! Gosto dos Ipês! Quem sabe, um dia, sentar-me à sombra dos ipês e testemunhar a alegria de ver homens, mulheres e crianças vivendo e brincando num jardim?

 

Hoje escrevo para as crianças. Especialmente para elas. Estas criancinhas com até 3 aninhos de idade: Elas não sabem que o homem chegou à Lua. Não sabem que a Vida é uma contagem regressiva. Não sabem que Berlim já foi duas. Não sabem que muitos remédios não curam, mas viciam. Não sabem que o voto do povo salvou Barrabás e condenou Jesus. Não sabem que sexo pode ser feito sem Amor. Não sabem que o cientista que inventou a Bomba Atômica recebeu um prêmio pela invenção. Não sabem que somos divididos em 1º e 3º Mundo. Não sabem que Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História. Não sabem que a esmola é o imposto informal da injustiça social. Não sabem que somos julgados pela aparência e condenados pela cor da pele. Não sabem que o homem ainda não decidiu se veio de primatas ou de Adão e Eva. Não sabem que todo muçulmano deve ir à Meca pelo menos uma vez na vida. Não sabem que quem celebra Aniversário no Natal não é o Papai Noel. Não sabem que o Cinema já foi mudo, mas já sabem, apesar da tenra idade, que existe um novo Coronavírus no Planeta. E já sabem que para este indecente ainda não existe cura.

 

Oh Deus, dá-me lírios, flores de lótus, bromélias e rosas também. Crisântemos, dálias, violetas, orquídeas e os girassóis! Mas por mais rosas e flores de lótus que me dês, eu jamais considerarei que a Vida é o bastante. Vai permanecer sempre a sensação de que falta algo. Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não há pássaros. Minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o oceano não chega nem quando da maré alta. Mas de que dor me refiro? A dor da perda! Perder não é racional. Compete-se nas Olimpíadas pela Medalha de Ouro. Luta-se pelo troféu no Campeonato. Tenho dois olhos. Com um, vejo as coisas do tempo, efêmeras, passageiras, que desaparecem. Com o outro, vejo as coisas da alma, eternas, que permanecem.

 

Hoje fecho meus olhos cansados porque me sinto em paz, porque estou cansado, porque sinto, pode ser que não seja assim, mas é assim que me sinto, que já disse tudo. Que Deus possa manifestar a sua Misericórdia para com todo aquele que não cultiva paisagens interiores, pois quem não tiver um jardim dentro de si, nunca encontrará o Paraíso. Uma Prece por nossas crianças! Elas merecem um Planeta Terra livre de uma outra Pandemia.

 

E a Palavra das Sagradas Escrituras para esta semana é Livro do Profeta Ezequiel Capítulo 36, Versículos 26 ao 28.

 

Com minhas Preces e Benção Sacerdotal,

Padre Claudio Dias.